Sunday, March 16, 2025

A Assassina de Malpique

Quando Vera Carlota do Livramento foi viver para Malpique, corria o mês de Dezembro do ano de 1933, o ano da instauração formal da Ditadura em Portugal, estava perdida para a vida e para os homens.

Nascida e criada em Cascais, num ambiente metropolitano, civilizado, filha de pais burgueses, se bem que quase nada abastados, encontrava-se viúva, pouco ou nada alegre, aos quarenta e dois anos de idade. Antes mesmo disso abortara da sua única filha, uma nado-morta que se teria chamado Maria Luísa e era-lhe totalmente impossível voltar a emprenhar.

A morte do marido, por suicídio, de tristeza e de dívidas no Casino, deixara-a praticamente na miséria. Os pais haviam-se finado e o escasso pecúlio que lhe tinham outorgado há muito fora dissipado pelo imbecil do marido nas mesas de jogo do Estoril.

Restava-lhe apenas a casa da Aldeia de Malpique, que sobrara de herança de uns tios que nunca chegara a conhecer, umas rendas de uns caseiros no Alentejo distante, ainda da parte do falecido, algumas jóias, coisa de pouca monta conquanto vistosas, o enxoval do casamento, bons linhos, umas quantas faianças de valor e a memória de um outro homem — um homem mau — que quase a desgraçara, ainda menina, acabada de se matrimoniar, e cujo distinto sobrenome jurara há muito nunca mais voltar a articular.

Do mal o menos, Vera era ainda jovem, viçosa, lábios fartos, mas não grosseiros, uma mocetona de carnes rubras, estatura de porte, boas ancas, sanguínea, e apesar de toda a mágoa e do luto que carregava ao chegar a Malpique, possuía meios suficientes para um sustento digno, abastante vontade de viver, determinação e saber de experiência feito, ou assim o julgava.

Todavia, cedo a realidade daquele lugar ermo, rochoso, frio, chuvoso, a sua permanente neblina, sobre ela se abateu. Malpique não era o paraíso idílico, charmoso, poético, com o qual quase ousara sonhar, em momentos mais felizes, alimentados na sua mélica vida de Cascais pelas leituras de Júlio Diniz, de Camilo Castelo Branco, da Cidade e das Serras de Queiróz.

Não havia água canalizada. Não havia Luz. As paredes da casa estavam cobertas de salitre, de humidade. Os móveis, de tão pesados e do caruncho, remetiam para um desgosto, uma amargura de séculos passados. Os vãos das escadas eram tortos, as portinholas das janelas careciam de argamassa, as vigas do telhado de reparações urgentes.

O pátio, apesar de amplo, não passava de um paraíso de ervas daninhas, de árvores de fruto malcuidadas. Os aldeões eram rudes, agrestes no trato, sempre desconfiados, as suas mulheres vestiam trapos, negros, usavam sachos por unhas, as poucas crianças eram porcas, descalças, feias, más, dos cães vadios que rondavam a casa à cata de sobras nem queria ouvir falar.

A única coisa que lhe valia era a Venda do Senhor Eduardo, onde apesar de tudo se arriscava estar, conversar com as senhoras de mais fino calibre da Aldeia, sentar, ignorar os galanteios crus, as piadas brejeiras e, claro está, havia o átrio da Igreja – onde podia tergiversar, na melhor das intenções, na máxima das discrições, com o seu Pároco, Confessor, um jovem loiro de porte greco-romano, alto, espadaúdo e de olhos azuis. 

Vera Carlota deu por si, nesse longo Inverno, a viver para as missas, as rezas, o terço, para o confessionário. Não que tivesse assim tantos pecados dos quais devesse ser absolvida, mas era viúva, ainda apetecível, numa terra onde escasseavam homens limpos, cultos, bem-falantes, como o Padre José Manuel, que perdição de homem, à sua semelhança também ele recém-chegado a Malpique. Bem-apessoado, de uma Freguesia afastada, pelo sotaque seria do Norte, talvez de Trás-os-Montes, com um passado misterioso, que ele próprio não se importava de ver cultivado junto da congregação.

José Manuel dava missas de uma beleza, de uma filigrana que nem em Cascais, ou assim o desejava ela pensar, alguma vez pudera sentir de coração serem tão eloquentes, tão singularmente loquazes, como eram as missas do Padre José Manuel. Tão novo, esbelto, caracóis loiros, dissertava o Pároco longamente sobre o Pecado, sobre a Tentação, aqui e ali uma pitada de Maria Madalena, a Virtude dos Apóstolos, a Traição de Judas, o Evangelho de Lucas, a Virgem, o fruto do seu Ventre.

Fulminava os crentes, quando os via desatentos, com olhos raiados, mas austeros de tão cristalinamente azúis, ou seriam verdes, como as copas dos pinheiros bravos das fragas circundantes e por vezes até tão cinzentos como os penhascos agrestes daquela terra, das suas gentes, de Evangelho de Lucas, cujas máximas nunca perdia oportunidade de recitar. O gesto, o porte, os paramentos, que paramentos!, acompanhavam o discurso ecoante de José Manuel e que doce, tão doce, era da sua alva mão receber, no final das missas, a pia hóstia sagrada. 

O pior vinha depois. Para Vera Carlota os domingos eram bentos e ansiados, mas os outros dias da semana passados numa solidão angustiante, numa ansiedade por cumprir. Malpique pouco ou nada tinha para a entreter. Contratara com uma velha dum lugarejo próximo, uma miserável, rés, esquálida, sempre na má-língua, uma tal de Guilhermina, a lida da casa e com um aldeão, coxo, sem eira nem beira, sobre o qual corria o boato de que não seria bem alinhavado dos alqueires, a poda das árvores de fruto, a limpeza do quintal, umas pinturas, umas argamassas, uns madeirames vindos de uma carpintaria de Abrantes, aqui e acolá, consertos, arranjos, mas tudo — tudo — levava eternidades a ser feito.

Notara, porém, que o Senhor Eduardo, o Dono da Venda, se afeiçoara, progressivamente, dela, que era cheio de salamaqueques, de rapapés, de vossa excelência tem desta casa tudo o que desejar, para vossa excelência só o melhor. Não fosse ele um bruto, um boçal, desdentado, talvez até que Vera Carlota ponderasse dar-lhe trela, vê-lo com outros olhos, quem sabe mesmo propiciar-lhe favores de outra índole, visto ser igualmente Eduardo viúvo.

Mas não havia nada que lhe apagasse o fogo que a consumia, a ansiedade afogueada, apesar da chuva que lhe inundava com cronométrica regularidade o salão de estar, o sótão, a cozinha. Os dias decorriam-lhe numa monotonia, num quebranto, entremeados meramente pelas refeições confeccionadas sem gosto nem sal pela gárrula da Guilhermina, pelo deitar cedo e pelo cedo erguer, entregue ao frio, à humidade, à ausência do ruído, de vozes, de vida, que não dos excruciantes latidos, dos uivos dos cães vadios que tudo emporcalhavam à sua passagem.

Assim se cumpriu Dezembro e assim se fez Janeiro. Passou a desmazelar-se. Já nem das unhas, de que tanto outrora se orgulhava, agora cuidava, A bem dizer, para quê fazê-lo, só aos domingos vestia as roupagens graciosas que trouxera de Cascais, só aos domingos se permitia aperaltar-se, para o padre, para o sonho e para a vizinhança de mais valia. Foi então que sucedeu um acontecimento completamente imprevisto, absolutamente insólito e de consequências que até hoje perduram.

No dia 5 de Fevereiro desse ditoso ano de 1933, que tantas mudanças prometia trazer à Nação, a megera da Guilhermina, que lhe fazia a lida da casa e lhe tratava dos repastos, chegou-lhe ao átrio da Igreja aos brados, num abundante linguajar, mãos para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, ofegante, com excitantes novidades: fora encontrado um corpo de um homem a boiar no riacho.

Que viesse a senhora ver, gritou-lhe Guilhermina estridente, quase que minaz, que era um homem de fora — um estranho!  —, que se tinha encontrado um relógio de ouro, um alfinete de gravata valioso, notas no bolso, que viera o Guarda, que estava para chegar a Polícia da Cidade Grande!

Vera Carlota foi instantaneamente acometida por um arrepio, não do frio das paredes de granito que há três seculos guarneciam o abóboda da Igreja, nem do resfolegar do vento, nem da chuva que se fazia escutar no exterior.

Rumaram todos os fiéis que a essa hora se encontravam no átrio do Templo ao riacho, também conhecido por Rio Torto. E era mesmo Verdade. Até o Padre José Manuel, de joelhos, com uma tristeza infinita, se benzeu.

A Polícia da Cidade Grande chegara também. Dois Inspectores, num Mercedes Benz de grande e fino recorte. O alvoroço correra já pelos montes e pelos caminhos de terra batida até às aldeias vizinhas.

Com ar de poucas falas, intransigentes, mórbidos, os inspectores impuseram a sua presença. Encostaram logo os aldeões mais destituídos a uma parede. O Guarda de Malpique, apesar da farda que tanta autoridade previamente lhe transmitia, mirrara a olhos vistos e era todo ele mesuras para com os senhores da Polícia da Capital do Distrito.

A chuva parara, mas não a neblina, essa intensificara-se. Sucederam-se os interrogatórios. O velho coxo que podava as árvores de Vera Carlota foi surrado à frente de todos, aos tabefes e aos pontapés, mais para intimidar os restantes do que por outro motivo qualquer, mas dele não extraíram qualquer confissão. Viraram-se logo para a velha anojosa da Guilhermina linguaruda, que tanto apreciava dar conta de rumores e de boatos. Debalde. Dela igualmente não chegaram a qualquer conclusão.

Enfadados, ordenaram a todos que se remetessem aos seus humildes tugúrios e aos burgueses que se fizesse total silêncio. Veio o médico legista de Abrantes e uma ambulância com uma cruz vermelha. O Padre José Manuel, após dar a extrema unção, entrara num pranto, quase como se o falecido fosse dele aparentado.

Os polícias, com a ajuda do médico, recolheram o corpo e, por fim, foram-se todos, sem que qualquer conclusão para aquele fantástico acontecimento fosse tirada, por eles ou pelos aldeãos.

Nessa noite, Vera Carlota do Livramento fechou a casa a sete chaves e sentiu receio, desconforto, medo de adormecer. Pois se haviam encontrado um morto, aquele morto, que não era da terra, da terra onde nada acontecia, no Rio Torto, cascos de rolha de Malpique, que mais poderia suceder? E logo aquele morto.

Deitou-se vestida, vestida adormeceu e finalmente, suada, conciliou-se com o sono. Para mal dos seus pecados. Sonhou com o morto, com o Padre José Manuel. Via-se nua, resplandecente, a receber a bênção no seu adorado confessionário e com o morto, a sua mão gélida a puxá-la para o riacho do Rio Torto.

Acordou molhada. Havia voltado a chover, algo teria de ser feito em relação ao telhado, pensou, mas o pobre do velho coxo que ela própria empregara tinha sido espancado pelos polícias e estava acamado, cheio de febres, quem sabe não caíra sobre ele a sinistra maleita da tísica, a doença do século.

Passaram-se dias que lhe pareceram infindáveis sem novas de relevo, sempre a recordar-se do passado, do morto. Porém, Malpique parecera ter regressado à sua anteriormente imutável pacatez. Até o Padre José Manuel dera uma missa pelos falecidos, por todos os finados, a missa mais compungida, mais solene, que alguma vez Vera Carlota escutara. Ela mesmo contribuíra para o cesto com 10 escudos, uma quantia vista com um misto de agrado e de surpresa pelos outros fiéis, de tão extravagante. Mas também com alguma desconfiança.

Havia algo de diferente no trato, no ar, na Guilhermina. Era como se houvesse vidas que chegassem ao mundo como estrelas cadentes, destinadas a atravessar a soleira do destino do mundo sem sequer pisarem o céu, deixando um rasto de destruição à sua passagem. À medida que se abandalhava, imersa em sombrios pensamentos, poucos já lhe dirigiam a palavra.

A megera da Guilhermina que lhe fazia a lida da casa, antes tão verborraica, calava-se agora, fazia os seus deveres a contragosto, exigia pagamento a pronto, andava de maus modos, a comida malcozida. Os petizes dos pés descalços, a quem dantes oferecia rebuçados, evitavam-na, fugiam dela. Até o Eduardo da Venda lhe franzia o sobrolho e o único cão que ouvia latir, pior, uivar de madrugada, era um gigante que assombrava o Rio Torto, onde haviam descoberto o morto.

Encontrava alguma consolação nas missas, mas o Padre José Manuel, dantes tão compreensivo, caridoso, ainda e sempre atencioso, começara a tratá-la com estudada indiferença e parecia ele próprio ter perdido a chama da vida, das homílias, já nem os Salmos recitava.

Chegou o fim do mês de Fevereiro. 1933 foi ano bissexto. O dia 29 de Fevereiro ficará para sempre inscrito em caligrafia sombreada na triste História da Aldeia de Malpique. Foi o dia da morte de Vera Carlota do Livramento.

Uns dizem que foi feita Justiça. Consultei a pouca documentação que ainda existe. Que se matou uma assassina, é o que ficou deduzido para a posterioridade. Outras fontes, coevas, afirmam que não, que a pobre da mulher, quiçá emancipada em demasia para a época, apenas tinha em comum com o morto encontrado em Rio Torto ser também ela uma estranha à Aldeia. Também ela. E que tinha medo, muito medo de cães.

No Verão de 2023 passei pela casa que dizem ter sido a de Vera Carlota do Livramento, agora em ruínas, uma casa que aparentava ter sido de fidalguia, de abastança.

Lá se encontra ainda hoje, gravado num azulejo, esmaecido pela usura do tempo, em letras garrafais, numa das paredes que sobrou, quase 100 anos depois, a seguinte frase: Casa Dos Assassinos. As letras no azulejo não são escorreitas, pelo contrário, parecem escritas por uma criança ou por alguém que tenha aprendido a escrever muito tardiamente.

O mistério permanece e nenhuma das pessoas idosas que sobraram, os tais petizes dos pés descalços, agora velhinhos, que só caminham com o auxílio de andarilhos e com quem tive o prazer de conversar, longamente, em Malpique e nos lugarejos vizinhos, dele se deseja recordar.

Saturday, March 15, 2025

O Emprenha Moscas de Abrantes

Adérito Romeu Caravau Pintado tinha 16 anos quando se fez à vida. Oriundo de Trás-os-Montes, para lá do Marão, Freixo de Espada à Cinta, cansara-se de ser vítima dos que lá mandavam e que, curiosamente ou não, ainda hoje, lá mandam. Em França, na Flandres, um dos seus dois irmãos morrera em 1917, por uma bala alemã.

Farto de levar porrada do pai, um fiscal aduaneiro que nas horas vagas perseguia contrabandistas, com uma apetência notória para a vinhaça e para a violência, fugira do recrutamento compulsório e dera com os costados, sem saber bem como, na então Vila de Abrantes.

De início, não sabia o que fazer e mais a mais fora parar pela linha de comboio justamente à porta de um Quartel Militar de Cavalaria. Adérito Romeu nada queria ter a ver com a tropa, já lhe bastava ter perdido o irmão mais velho, ser arrebanhado para morrer no estrangeiro ou definhar em Tancos não era de todo a sua ambição.

De madrugada, cheio de fome e a tiritar de frio, foi bater à porta de um marceneiro. Este, de seu nome Carlos António Cabral, um reputado mulherengo, dizia-se à boca pequena na tasca onde Adérito custeara a sua parca refeição, era não só marceneiro — do qual rezavam as más línguas — mas também vigarista, solteirão empedernido e de maus fígados violento.

Contudo, o dito marceneiro, homem para os seus quarentas e muitos, talvez cinquentas, pareceu apiedar-se de Adérito, àquela hora tão matinal, ainda o orvalho mal descongelava das telhas do seu casebre, acolhendo o jovem desertor com o braço aberto e dando-lhe sustância de comer.

Adérito encontrava-se perdido, como um bote sem vela e sem leme à deriva, mas era um rapaz robusto. Alto, bem parecido, cabelo aloirado, olhos azuis, via-se que tinha ganas de singrar na vida, que tinha futuro. O marceneiro, que nunca tivera filhos e que há muito procurava um rapaz que o ajudasse a expandir a carpintaria, bem como para tratar de outros assuntos, foi rápido nos seus cálculos. Em poucos dias, a troco de dormida e alimentação, Adérito passou a ser seu aprendiz.

A vida da carpintaria não era fácil, os clientes não abundavam e a mais das vezes era preciso limpar o pó das mesas, cadeiras, cómodas, armários, estantes, serrar vigas, espetar pregos de aço em calços de chumbo, outra coisa qualquer, até mesmo espantar as moscas das sacas de sobras de serradura e o patrão, como se habituara a chamá-lo sem nunca o dizer em voz alta, nem sempre o tratava bem, às vezes batia-lhe, sem grande esforço e bem visto sem o magoar, com o cabo de uma sachola que tinha sempre à mão de semear.

Na casa do marceneiro, o rancho, em tais circunstâncias, era também exíguo, mais água do que pão, faltava-lhe o sal, mais feijão do que carne, sopas de vinho ou de cavalo cansado ao pequeno almoço, mas, para um jovem fugitivo, um desertor do interior Norte, com poucos ou quase nenhuns estudos, embora tivesse as primeiras letras, procurado pela Autoridade, tal não era novidade. A bem dizer, até a Adérito lhe convinha o arranjo. O patrão tinha o dobro ou mais do que a sua idade. Que era mau quando queria, isso sabia-o bem. Todavia, Adérito estava lançado, era rápido na aprendizagem da profissão, esperto que nem um alho, sabia ver, sabia ouvir e sabia fazer, sem que o seu Mestre precisasse de lhe mostrar duas vezes.

Um dia, o marceneiro surpreendeu-o com uma proposta inusitada. Convidou-o para ir com ele a uma casa de meninas, para aproveitar o que vida tinha de bom, que ele iria gostar, que merecia um prémio por ser tão diligente aprendiz. Desconcertado, Adérito hesitou, mas viu-se na contingência do sobrolho carregado do mestre e que remédio teve que não o de aceitar, a bem dizer, apesar do seu espanto inicial, o mestre é que iria custear a despesa.

Chegados ao local, Adérito viu-se inundado em perfumes baratos, ligas, meias de nylon, corpetes, fumo de tabaco, espartilhos, bafos de bebida, mulheres demasiado velhas e pintadas como a cera das madeiras dos mais finos móveis da carpintaria, daqueles que se arranjavam por encomenda especial para a burguesia.

Entre um copo e outro o mestre puxava por ele, olha aqui a Mariete, não te agrada?... A Mariete, uma morenaça roliça, olhos castanhos avelã de morrer por mais, porém já gasta, mas cobiçosa de dinheiro e do jovem adónis, acenava que sim, que lhe queria dar todo, todo o seu amor.

Adérito, pouco acostumado ou mesmo nada à presença de senhoras de fraca reputação, tremia que nem varas verdes. Contudo, o mestre insistia e com mais um copo de uma bebida que nunca lhe havia passado pelo estreito, meio tonto, aos ziguezagues, Adérito lá se dirigiu, pela mão de Mariete, ao quarto.

Carlos António Cabral, assim dizia chamar-se o marceneiro, aguardou pacientemente. Por fim, emergiram ambos do quarto, qual submarino de pavor. Mariete vinha com cara de poucos amigos, insatisfeita e Adérito com o rosto vermelho que nem um tomate rubro em dia de feira de mercado municipal.

Mariete estendeu a mão ríspida e exigiu, com sobranceria, quase que ofendida, o pagamento. Ao virar as costas aos dois homens gritou-lhes: Nunca mais me tragas este, nem para emprenhar moscas serve! Carlos casquinou e Adérito, se um buraco, um cemitério tivesse, ter-se-ia nesse exacto momento enterrado.

O desânimo do jovem era total, absoluto, nunca fora tão enxovalhado na sua curta existência. O fardo do fiasco pesava-lhe mais do que se tivesse sido catado para o exército e levado à força para a Flandres, como o irmão, para a morte mais do que certa. Saíram para o frio da noite. Carlos ia reconfortando o moço: Olha, não fiques assim, se és paneleiro podes sempre ir para Padre. E Adérito, abatido com mais essa estocada, costas encurvadas, nariz no chão, os olhos marejados de lágrimas, de vergonha, de pesar: Eu, para Padre, Mestre?...

Sim, tu, para Padre, nunca leste ou nunca fingiste ler a Bíblia? Li, pois, retrucou Adérito, subitamente irado, ressentido nos seus brios, ele sabia as suas Letras, que Diabo, em Freixo haviam sido os padres do mosteiro que o tinham educado quando não levava porrada do pai! Conheço o Evangelho de Lucas de fio a pavio! Sei os Salmos, sei do Pecado! Sei tudo — exclamou, numa voz trucidada que pretendera mais segura.

Ora nem mais, não te preocupes, vais para Padre que eu te quero ajudar, amanhã vamos a Leiria, há lá um cónego que me deve favores e, vais ver, em menos de nada estás Padre de igreja montada, anima-te meu rapaz, confia em mim — sorriu Carlos para Adérito, os olhinhos semicerrados, ainda mais frios do que a humidade trespassante da noite, de modo tão ameaçador, contundente, quanto assertivo.         

Friday, March 14, 2025

A Espingarda do Homem Morto

Carlos António Cabral, o nome a que com o tempo se afeiçoara, era chulo. Desde que se lembrava de existir sempre fora chulo. Aproveitava-se das mulheres, seduzia-as e, inevitavelmente, após as ter na mão, punha-as a render, antes de as descartar como se fossem jornais velhos. Trabalhava primordialmente na zona de Cascais, era aí que catava as finas, as giraças sofisticadas, com a mania de que sabiam tudo, que caiam sempre nos seus contos do vigário; ora ele passava por um barão da indústria que tinha o dinheiro todo empatado nos caminhos de ferro em África, ora por herdeiro de um conde minhoto que recusava sustentar o filho, fosse o que fosse, atirava-se sempre às que rendiam mais dinheiro, era só viciá-las em narcóticos et voilá, putas à discrição.

Dinheiro esse que sustentava o seu estilo de vida extravagante. Vestia bem, possuía um relógio de bolso em ouro maciço, um alfinete de gravata cravejado de diamantes, fazia as unhas, a brilhantina, o chapéu da moda e de tempos a tempos também limpava uns tolinhos tansos no Casino do Estoril.

Naturalmente, andava sempre armado. Tinha um revólver 32 de fabrico inglês, perfeito para o seu coldre de sovaqueira, uma pistola Lugger alemã, discreta na bainha das calças e até uma espingarda Smith & Wesson, mas essa só a usava por divertimento, quando se via aborrecido e sem mais nada com que ocupar o seu tempo ou, por contraponto, nalgum serviço ocasional de despachar discretamente alguém e por tanto ou tão pouco receber um bónus extra.

A vida corria-lhe bem, o Sidónio Pais tinha vindo e ido, servicinho no qual desempenhara o seu devido papel, a República idem aspas aspas e a Ditadura tinha-se imposto sem grande fragor. Tudo parecia correr-lhe de feição e pensava já em reformar-se. Acumulara uma soma considerável, ponderava retirar-se ou continuar o seu acto em grande, na Riviera francesa.

Foi aí que tudo desabou. A sua última conquista, uma jovem, voluptuosa, lábios grossos, casada com um jogador de poker muito pouco inteligente, confrontada com o suicídio do marido, resolvera chibar-se dele à Lei. Carlos foi de cadeia para o Linhó. Na prisão aprendeu o ofício da carpintaria e cumpriu o seu tempo. Para além do relógio de ouro, do alfinete de brilhantes e da espingarda Smith & Wesson, que atempadamente colocara em mão que lhe sabia fiel, e a bom recato, estava com quarenta e sete anos, desgastado, amargurado e, pior, prematuramente envelhecido, ainda que possuído por um enorme desejo de vingança.

No dia da libertação foi direito que nem um fuso à estação de Santa Apolónia, com os míseros escudos que amealhara na cadeia pôs-se logo no primeiro comboio da linha do Norte. Desceu no Entroncamento e foi visitar um tal de Valério, um velho companheiro de golpadas que por ali se estabelecera e que lhe havia religiosamente guardado os pertences.

Valério nem queria acreditar quando o amigo lhe bateu à porta. Após uma caldeirada de rojões com arroz, cenouras, favas e dois copos de três, Valério foi buscar ao esconderijo a espingarda, o alfinete e o relógio de ouro. O amigo tinha envelhecido e quase que a aparência de Carlos lhe metia medo, mas escusou-se a mais comentários e até lhe emprestou 500 paus, em memória dos bons velhos tempos. Ao despedirem-se, abraçou-o, perguntando: E agora? A resposta, crua, sibilina, foi para o destemperado Valério simples de prever. Agora vou vingar-me, respondeu Carlos. Sem mais detalhes, num tom totalmente impessoal, um olhar entre amigos valia tudo, Valério casquinou, apertou a mão ao companheiro e quedou-se na soleira da porta da sua casa a vê-lo entrar na bruma nocturna de volta à estação de onde tinha chegado, intimamente aliviado por saber que tão cedo não se voltaria a cruzar com aquela tenebrosa partícula do Demo que aprendera a tratar por tu.

Ao chegar a Abrantes, com os 500 escudos, Carlos alugou uns casebres e um armazém perto do Quartel. Quinhentos escudos não o levariam longe e estava bem consciente disso. Porém, tinha o seu mister de carpintaria, com o resto do dinheiro que Valério lhe dera comprou serras, martelos, pregos, réguas de nível, pesos, tábuas, limas, madeiras de cedro, de carvalho. Anunciou o negócio nas tabernas, no quartel, nas vendas, na câmara, na junta e aguardou.

Não tinha pressa, Carlos António Cabral sabia muito bem onde encontrar a puta que lhe dera cabo da vida, mas primeiro havia de precaver-se, jurara a si próprio nunca mais regressar à prisão. Guardou a espingarda, sempre bem oleada, as munições, o relógio e o alfinete de gravata. Iria precisar de tudo isso no dia em que colocasse um ponto final no passado.

O negócio arrancou. Apesar das tatuagens que um preto de Angola lhe fizera nos antebraços, na sua estadia forçada no Linhó, que com ele havia partilhado malga e cela, como era bom a lidar com madeira e aparentemente de uma honestidade franca, sã, em breve foi aceite pela generalidade da sociedade abrantina, dos camponeses aos lojistas e ao burguês.

Sendo homem e apesar da meia idade ainda válido, com aquele charme que só os cinquentões podem ter, com vigor e necessidades, por vezes ia às meninas, por vezes trepava as esposas dos fregueses mais incautos, sempre com extremas cautelas, já que não se podia dar ao luxo de voltar a ter problemas com a Lei.

O tempo passou e à medida que o tempo passava, entre mesas, estantes, cómodas, armários, aparadores, cadeiras e coxas, começou a delinear o seu plano. Enquanto isso, o negócio prosperava, já não tinha mão para as encomendas, a serrilha e o pó entupiam-lhe os brônquios, cansava-se e não conseguia dar vazão a todas.

Foi então, numa madrugada gélida de Fevereiro, que o destino interveio de novo. Para além da espingarda, do relógio, do alfinete, de um fato de linho e de um clássico chapéu de velcro, que, entretanto, comprara numa viagem incógnita à vila de Alcobaça, suficientemente longe de ouvidos, de olhares indiscretos, havia acabado de encontrar, na forma de um mocetão loiro, de olhos azuis, magro e faminto, o instrumento perfeito para consumar a sua vingança.

Thursday, March 13, 2025

O Golpe de Leiria

O Cónego Artur de Sousa Coutinho era um homem de peso, em ambos os sentidos da palavra, na toda poderosa Diocese de Leiria. Rubicundo, quase com 60 anos de idade, nenhum assunto da Religião lhe passava ao lado e todos sabiam que até o Bispo com ele se confessava. Segundo filho de uma família heráldica de Vila Nova de Cerveira, no Minho, os famosos Sousa Coutinhos, já em 1900, na entrada do século XX, arrastava a sotaina pelas galerias do Vaticano, em Roma. 

O 5 de Outubro de 1910 apanhara-o na capital, Capelão oficial da Sé Nova tinha o ouvido dos Nobres, de João Franco e até, constava, da própria Rainha Mãe, mas tivera, em rectidão face ao anticlericalismo dos revolucionários, de fugir a mata cavalos para Braga.

Na cidade dos arcebispos fez e renovou muitas amizades, intrigou quanto bastasse e rapidamente subiu na Hierarquia. Em 1920 regressou a Lisboa e a muitas mais boas obras, após o homicídio de Sidónio Pais, com zelo, esmero e ebuliente abnegação, se dedicou. Tratava-se de esmigalhar os infiéis, os Bernardinos Machados, os Teófilos Bragas, e todos os outros, os anarquistas fanáticos, que só traziam na esteira o Pecado, a desordem, a corrupção.

Não obstante, o seu fervor não se quedava pelos conteúdos da Política e do Espírito. Dava missa na Igreja dos Prazeres, em Cascais. Já pesado, mas ainda não gordo, eram sermões irrepreensíveis e de rara eloquência, com uma tonsura de fazer inveja, botins de veludo, a sotaina sempre imaculada e os paramentos, esses, esses tinham vindo de Roma.

Algumas devotas perseguiam-no, às vezes quase que se deixava resvalar, tinha sede, tinha fome, mas os votos que prestara a Deus logravam, mesmo que com grande arduidade, impedi-lo de ceder à Tentação.

Um dos paroquianos em particular, um tal de Carlos António Cabral, dos Cabrais do Mindelo, Condes por El Rei Dom João VI, que frequentava as suas missas dominicais com expressa beatitude e devoção, sempre muito bem posto, generoso na farta esmola aos coitadinhos, aos órfãos e aos inválidos, relógio no colete do fato em ouro, alfinete de gravata que se notava ser de prata e de brilhantes, preciosos, um dia quis-lhe apresentar uma prima, que lhe sussurrou ser prima direita, sua protegida, uma jovem casta, pia, baixinha, roliça, morena, olhos de garça, chamada Mariete Augustina de Mello Cabral.

Não demorou muito até Artur de Sousa Coutinho passar a ser confessor da jovem e ainda demorou menos a enrolar-se com ela, a gozar que nem um impio, num regabofe que faria corar o mais devasso dos devassos, deste mundo ou de outro, o debaixo. Depois, foram os bilhetinhos. As cartas de amor eterno e de garantias de que se não fosse do Clero assumiria o amor perpétuo que por Mariete professava, desbragado que se via, louco de tanta beleza, de tanta luxúria, de tanta libertinagem.

Como era previsível, esses bilhetinhos, essas cartas, escritas e assinadas pelo seu próprio punho, no papel timbrado da Sé Nova, bem como outras indiscrições, das quais havia testemunhas credíveis, rapidamente se viraram contra si.

Carlos Cabral, numa bela tarde de domingo, solarenga, após a missa onde não estivera presente, sem avisar, aparentando apopléctica indignação, entrou-lhe pela Sacristia adentro e ameaçou-o com um processo, com a Gazeta da Capital, com os Vespertinos, com o Bispo! Que não, que não, que era um equívoco, que o Senhor Conde não o podia desgraçar, que faria tudo por ele!

E o Senhor Conde, claro está, em virtude do seu carácter piedoso, da sua devoção para com Cristo, para com a Virgem avistada pelos Pastorinhos em Fátima, resolveu perdoar a desonra feita à prima, mas avisou o cónego de que ficava com os bilhetinhos, com as cartas e que tinha testemunhos notariados ainda mais comprometedores.

Quando Artur recebeu a notícia de que o conde, que afinal não era conde, havia sido preso, suspirou de alívio. Porém, pelo sim e pelo não, foi visitá-lo ao Linhó, alegando querer prestar conforto espiritual a um pobre pecador que já se arrependera das suas vis embora ingénuas acções e até intercedeu favoravelmente junto do director do presídio. Assim ficou, ou pensava Artur, o assunto esquecido, resolvido, enterrado, sepultado, no Linhó.

Haviam-se passado muitos anos desde então. Artur mudara-se para Leiria. A sua influência crescera, a barriga em igual ou superior proporção, a adoração das beatas, apesar daquele livreco asqueroso que o Queiróz escrevera, o crime do padre não sei das quantas, era para si um mar de delícias, de cetins, de rendas vermelhas, de botins aveludados e a vida na Diocese doce, muito doce; uma chatice ter que dar missa todos os domingos, mas enfim, com isso podia ele bem.

Naquele fim de tarde, ao acabar de proferir uma Homília que lhe custara duas horas e meia de roda das Sagradas Escrituras e após todos os fiéis, na Paz de Cristo, se terem irmãmente saudado, sentiu abruptamente um calafrio pela espinha acima. Na última fila da nave da Igreja encontravam-se dois homens. Um rapaz, jovem, loiro, porte digno e outro, muito mais velho, grisalho, escorado num sorriso escarninho, trocista, o qual não podia deixar de ser nem mais nem menos do que o “conde”.  

Wednesday, March 12, 2025

O Cão de Rio Torto

Gustavo Tumba nascera no Congo Belga. Preto, aos 12 anos já andava de catana na mão, a matar os brancos que tudo levavam à frente na grande partição de África. Sofrera muito às mãos dos belgas do Rei Leopoldo, um criminoso que ocupara a sua Nação e que só muito mais tarde foi repudiado, até pelos seus próprios concidadãos. No dealbar da Primeira Guerra Mundial, Gustavo passou-se de armas e bagagens para território angolano, então parte do império colonial português, para o exclave de Cabinda, onde sonhou criar raízes e uma família. Porém, como lhe foi dito por um Soba de Cabinda, homem sábio, chefe de clã, esse não seria o seu destino, as suas andanças levá-lo-iam para longe, para muito longe da sua terra.

Mal tinha chegado e já era recrutado pelos portugueses, para um batalhão de caçadores de reconhecimento, nativos, parte de uma manobra mais ampla, que visava pôr cobro às incursões dos alemães da Namíbia. Fez milhares de quilómetros de comboio, a pé, em marcha forçada, apenas para que o batalhão chegasse atrasado, quando dos malditos alemães da Namíbia já nem sombra havia. Também, com aquele sol, era difícil.

Um dos oficiais, um tenente branco, um dos poucos que era homem prático, ambicioso, desembaraçado, viu nele potencial. Gustavo Tumba media mais de dois metros, pesava a brincar 120 quilos, mas era ágil como uma raposa, silencioso como um gato e letal como um elefante. O seu sobrenome, aliás, pegara e colara, quando o batalhão foi deslocado para a actual Zâmbia e finalmente encontraram os alemães do famoso general Paul Von Lettow-Vorbeck.

Gustavo despachou tantos ou tão poucos dos Ascaris alemães que os companheiros e os oficiais o passaram a considerar o homem mais mortífero do exército português de África e daí o sobrenome Tumba; por onde Gustavo passasse, era certo e sabido que alguém acabaria enterrado.

O tenente português já de Tumba não prescindia, promoveu-o, fez dele Primeiro Cabo, seu Ordenança pessoal, consultava-o no entendimento das cartas geográficas, deu-lhe até para lhe ensinar a ler e a escrever.

Os dois faziam uma equipa de sonho, o tenente era liderança, poder e no mato e na savana não havia homem mais arguto, perspicaz, atento, do que Gustavo. Na aprendizagem das primeiras letras o preto espantava a todos com a facilidade da caligrafia, da pronúncia, do vossa excelência é que sabe, do vossa mercê não está a ver o bicho, do tu tenente não achas que é melhor irmos por aquela picada?...

Todos os dias surpreendia o seu inusitado professor e todos os dias o protegia a ele e ao batalhão indígena dos caçadores angolanos, apesar de as baixas, por vezes, serem pesadas.

Veio o fim da guerra e o tenente pensou para com os botões da farda que em breve teria de regressar à sua cidade natal, Peso da Régua, via paquete primeiro, longa viagem, e comboio depois. Afeiçoara-se imenso ao negro. Com Gustavo sentia-se sempre seguro, nem uma beliscadura sofrera em quase dois anos de guerra, nem cólera ou malária, o preto velava, antecipava o inimigo, fosse este homem, bicho, água infecta ou insecto.

Viram-se em Luanda. O Regimento ia ser desmobilizado e os nativos seriam remetidos às suas terras de origem, desenraizados, haviam-se batido e morrido para nada. Gustavo só perscrutava o vazio, quem sabe um futuro de saque e de pilhagem. O Soba bem que lhe dissera que o seu destino não só era incerto como o levaria para muito longe de África.

O tenente resolveu fazer-lhe uma proposta: viria com ele conhecer a Pátria Mãe pela qual tanto se batera. Ver Portugal, ser seu homem de mão, trabalhar como caseiro, com rendas, quem sabe até arranjar uma branca que pudesse emprenhar e ser no velho mundo por fim feliz. Gustavo aceitou. O tenente era um homem sério e a ideia de ver finalmente Portugal, a terra misteriosa de que tanto o tenente falava, pela qual tanto sangue vertera e pela qual tantos homens matara, parecia-lhe uma oportunidade única, dourada.

Embarcaram no Albertville, posteriormente renomeado “Angola”, paquete de valor, rumo a Lisboa, apenas em 1922 e a viagem não foi fácil. Primeiro, uma das três caldeiras do vapor deixou de estar operacional, o que reduziu a velocidade para uns meros 10 nós. Depois, sobreveio uma tempestade. Carregado de passageiros, de borracha e de café, o Albertville quase foi a pique.

No tombadilho, Gustavo Tumba, que de marinheiro nada tinha, passava os dias a vomitar. Veio a doença, a tisica, ou a peste branca, mas, felizmente para ele, era preto. Ao finalmente aportarem na escala de Bissau já tinham morrido mais de 30 passageiros e 3 membros da tripulação. O tenente tossia e emagrecia a olhos vistos.

Consertada a caldeira, renovadas as provisões, o Albertville fez-se de novo ao mar. Ao largo das Ilhas Canárias não se escutava um pio, a calmaria era total mas em breve se abateu sobre eles nova e ainda mais furiosa tormenta. Uma das hélices soltou-se. Quase sem propulsão, o Albertville, onde a tísica ou a peste branca andavam à solta, lá se arrastou até à barra do Tejo. Gustavo perdera 20 quilos e o tenente passara a tossir sangue. Perto do Forte de São Lourenço da Cabeça Seca, ou Farol do Bugio, veio um piloto da barra e um médico. Foi ordenada a quarentena do Albertville e o capitão forçado a retroceder e fundear na Baía de Cascais.

Quarenta dias depois foram finalmente autorizados a entrar no porto. Era demasiado tarde para o tenente, que falecera nos braços de Gustavo. Louco de dor, consumido pela perda do seu protector e do seu único amigo, Gustavo entrou num transe violento, ululante, partiu a cabeça ao Imediato e foram necessários seis marinheiros para o dominarem.

Em terra, totalmente só, rodeado de brancos e de brancas que o insultavam, aos gritos de belzebú, belzebú, preto, preto, preto, espancado pelos guardas, cuspido pelos locais, foi presente ao Meirinho. Dorido e ensanguentado, logo ali apanhou sem apelo nem agravo 10 anos no Linhó.

No presidio espetaram com Gustavo Tumba numa cela com um branco. Os guardas riam, gozavam, esperam talvez que o preto matasse o branco ou vice-versa. Surpreendentemente, o branco ajudou-o a sarar das sevicias a que fora submetido. Arranjava comida, recebia visitas, de uma mulher bonita e até de um padre, tinha privilégios, ao contrário de Gustavo trabalhava na oficina da cadeia, fazia coisas em madeira, mesas, cadeiras. Esse branco era finório, respeitado, subornava os guardas, tomou-o debaixo da sua asa, protegeu-o dos outros, esse branco chamava-se Carlos António Cabral.

Com o passar do tempo, recordando as lições do mato, da savana e o que via do seu companheiro de cela, Gustavo aprendeu as manhas daquela nova selva. Passaram a extorquir os outros presos e às vezes a sová-los.

A mulher que visitava o companheiro trazia narcóticos, que vendiam aos outros presos e até a guardas, para os incriminar. Em suma, ao fim de três anos, Gustavo Tumba e Carlos António Cabral, Senhor Carlos, como todos o tratavam, até o director, eram unha com carne. 

Não que tudo fossem flores, bem pelo contrário. Em certa ocasião, o companheiro foi apanhado com a droga, espancado, roubado e ficou dois meses na solitária. Partiram-lhe os dentes de cima todos. Noutra, calhou a Gustavo levar com um gorila, um francês que odiava pretos, grande como um arranha céus dos que havia na América, que lhe deu um enxerto de porrada que o atirou por dois meses para a enfermaria. 

Os anos passavam, não havia esperança de ser caseiro, de conhecer Portugal, de emprenhar uma branca, tinha saudades do seu tenente. Cobiçava Mariete, mas essa era do chefe e não havia mais nenhuma. A Carlos António Cabral não lhe passava despercebido que o negro tinha ânsias da sua gaja e começou a intrigar contra ele. A sociedade entre branco e negro estava posta em causa.

O Chefe gozava-o abertamente, até perante os outros: pareces um cão, um cão preto! E Gustavo, que nunca vira cães em África, de cães só lhes conhecia a palavra que o tenente lhe ensinara, que eram como as zebras, mas mais pequenos, ficava perplexo, sem perceber.

À medida que se aproximava o dia da libertação do chefe mais este o gozava, estava sempre no gozo, nunca esticando demasiado a corda, sempre precisando da segurança imponente que Gustavo lhe propiciava, mas sempre no gozo, constantemente fazendo pouco dele, lá vai o cão fazer o serviço do mestre, que belo cão preto é este!

No dia em que Carlos António Cabral foi solto a Gustavo Tumba ainda lhe faltavam pelo menos seis meses. Ao despedir-se, o chefe, maligno, arranjou maneira de o francês ir para a cela de Gustavo. Nessa mesma noite Gustavo levou um enfardamento para ninguém botar defeito, mas o francês também não se ficou a rir.

Na enfermaria do Linhó outra vez, o preto, quase que verde de raiva, jurou a si próprio que se vingaria. Nunca seria caseiro, nunca teria rendas nem emprenharia brancas, estava ciente disso. Todavia, arranjaria um cão, um cão grande, mau e mais tarde ou mais cedo sabia que ia encontrar a pista do chefe, onde quer que este se tivesse dirigido.

Tuesday, March 11, 2025

O Sargento de Santa Margarida

Meses após a minha primeira estadia em Malpique, conheci por fim uma personagem singular: o Sargento Meireles. Os dois idosos que mencionei no conto primeiro desta antologia e que não se queriam abrir muito em confidências tinham, apesar do seu mutismo inicial, referido que se havia alguém com quem eu devesse conversar sobre acontecimentos que não queriam, não deviam e dos quais não se podiam recordar, visto terem feito voto de silêncio para com um padre falecido fazia décadas, esse alguém era uma espécie de historiador amador que há muito se radicara na Aldeia da Portela de Santa Margarida, povoado vizinho a Malpique, perto da célebre Base do Exército, de seu nome Augusto Meireles, ex-militar de carreira. 

Esse homem, o qual por fim encontrei, é uma pessoa que fez a guerra colonial na Guiné, acompanhou o Salgueiro Maia, ainda era apenas cabo lanceiro, naquela louca, mas abençoada cavalgada dos capitães de Santarém até Lisboa, em Abril de 1974, e que, muito antes disso, passara pela recruta no já mencionado Campo de Tiro de Santa Margarida.

Hoje aposentado, viúvo, à borda dos 97 anos, pai de filhos, com netos, bisnetos, trisnetos, Augusto Meireles reside muito próximo da base militar e recorda-se da história da senhora assassina (ou assassinada). Ouviu falar por alto de um chulo, um pulha abatido à queima roupa, de um padre que era tudo menos cristão, de um preto e de um cão.

Falou-me da lenda do cão, indicou-me placa da casa, asseverou que o padre afinal não seria assim tão casto quanto parecia; disse que em 1962 ainda se falava em Santa Margarida com temor de um negro retinto, do qual a única coisa que me confirmou ter-lhe sido contado foi que o nome do negro em causa era de facto Gustavo, Gustavo Tumba.

Aparentemente, o preto ter-se-á sumido da terra logo após os crimes praticados em 1933, verdade, mito ou lenda não se sabe, para nunca mais voltar a ser visto.

O sargento Meireles garantiu que não o chegou a conhecer, mas lembrava-se de que constava, entre os praças, à data da sua primeira incorporação em Santa Margarida, ainda era ele rapaz, mancebo, que o preto Tumba tinha um cão; um mastim vermelho, talvez um doberman arraçado, talvez um rotwiller cruzado com pastor alemão.

Dizia-se em surdina que o cão rondava um riacho próximo, o de Rio Torto, nas margens do qual eu próprio estive, cujas águas revoltas contemplei e que, nas noites de densa névoa, de frio excruciante, de chuva, do Inverno, uivava tão lancinante que até na caserna, prestando-se a devida atenção, podiam os seus latidos serem escutado pelos praças mais predispostos aos tópicos da superstição.

Monday, March 10, 2025

Amor em Casais Robustos

Todas as histórias e todos os passados que pesquisei, dos Arquivos da Torre do Tombo até aos da Companhia Nacional da Borracha (CNB-CAMAC), passando pelos das Dioceses, das Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, pelos registos de Estabelecimentos Prisionais, que remontam somente a 1939, levaram-me a concluir que haverá coisas melhor perdidas do que encontradas e por outro lado fizeram-me constatar o quão efémera é esta nossa transitória passagem pelo mundo e pelas vidas de todos os outros homens ou mulheres, passados, presentes ou futuros. 

O quão frágil e às vezes cativa por acontecimentos que de todo controlamos, apesar de pensarmos o contrário, de nos julgarmos mestres, donos, senhores dos nossos destinos, é esta odisseia fantástica, esta aventura maravilhosa a que chamamos A Vida.

Após dois anos em busca do verdadeiro assassino (ou assassina ou assassinos) de Malpique, muitas dúvidas e poucas certezas me restam. Cheguei lentamente à conclusão de que o meu tempo é demasiado precioso para prosseguir com as minhas averiguações, as quais inevitavelmente não poderiam senão mais do que conduzir-me a becos sem saída.

No fim de contas, as histórias, as aspirações, os desejos, as intrigas, os medos, os receios, os ciúmes, as invejas, os crimes e as fantasias sobre as quais me debrucei pertencem a um passado distante. Quem sou eu para o querer escrutinar à lupa do século XXI?

Ademais, tenho uma mulher que me ama à minha espera, uma mulher que eu, na minha busca obsessiva pela verdade — tão elusiva — dum passado que me é pessoalmente tão próximo quanto distante, embora não a tendo menosprezado, tenho-a de algum modo descurado.

Trago também duas alianças no bolso que comprei numa ourivesaria da moderna cidade de Abrantes e que bela é hoje essa jóia, onde o Tejo e o Zêzere se encontram. Essa mulher é, tal e qual como eu, também ela, robusta, forte e tenho a certeza de que haveremos de fazer um belo casal.

A verdade é que, lá porque me chamo Jorge António Cabral, e lá porque muito provavelmente o meu avô paterno se chamava Carlos António Cabral, um homem que terá tido um caso com uma mulher chamada Vera Carlota do Livramento e lá porque ambos desapareceram deste mundo envoltos em trágicas circunstâncias, que é que tal interessaria, a mim, aos meus amigos ou a quem quer mais que fosse?...

Foi com esse pensamento que me despedi do bondoso Sargento Meireles, dos amigos que fiz em Malpique, que me coloquei ao volante do meu Alfa Romeu, já agora topo de gama, que virei costas à Portela de Santa Margarida e que me dirigi pela A 23 de regresso à minha casa de Lisboa, seguro de que em minha casa encontraria não só sossego, mas também a escritura de compra de uma carpintaria, datada de 1929 e uma espingarda ferrugenta que muito antes me fora asseverado ter pertencido ao meu paterno avô.

Lisboa, Campo de Ourique, 28 de Fevereiro de 2025.