Quando Vera Carlota do Livramento foi viver para Malpique, corria o mês de Dezembro do ano de 1933, o ano da instauração formal da Ditadura em Portugal, estava perdida para a vida e para os homens.
Nascida e criada em Cascais, num
ambiente metropolitano, civilizado, filha de pais burgueses, se bem que quase
nada abastados, encontrava-se viúva, pouco ou nada alegre, aos quarenta e dois
anos de idade. Antes mesmo disso abortara da sua única filha, uma nado-morta
que se teria chamado Maria Luísa e era-lhe totalmente impossível voltar a
emprenhar.
A morte do marido, por suicídio, de
tristeza e de dívidas no Casino, deixara-a praticamente na miséria. Os pais
haviam-se finado e o escasso pecúlio que lhe tinham outorgado há muito fora
dissipado pelo imbecil do marido nas mesas de jogo do Estoril.
Restava-lhe apenas a casa da Aldeia de
Malpique, que sobrara de herança de uns tios que nunca chegara a conhecer, umas
rendas de uns caseiros no Alentejo distante, ainda da parte do falecido,
algumas jóias, coisa de pouca monta conquanto vistosas, o enxoval do casamento,
bons linhos, umas quantas faianças de valor e a memória de um outro homem — um
homem mau — que quase a desgraçara, ainda menina, acabada de se matrimoniar, e
cujo distinto sobrenome jurara há muito nunca mais voltar a articular.
Do mal o menos, Vera era ainda jovem,
viçosa, lábios fartos, mas não grosseiros, uma mocetona de carnes rubras,
estatura de porte, boas ancas, sanguínea, e apesar de toda a mágoa e do luto
que carregava ao chegar a Malpique, possuía meios suficientes para um sustento
digno, abastante vontade de viver, determinação e saber de experiência feito,
ou assim o julgava.
Todavia, cedo a realidade daquele lugar
ermo, rochoso, frio, chuvoso, a sua permanente neblina, sobre ela se abateu. Malpique
não era o paraíso idílico, charmoso, poético, com o qual quase ousara sonhar,
em momentos mais felizes, alimentados na sua mélica vida de Cascais pelas
leituras de Júlio Diniz, de Camilo Castelo Branco, da Cidade e das Serras de
Queiróz.
Não havia água canalizada. Não havia
Luz. As paredes da casa estavam cobertas de salitre, de humidade. Os móveis, de
tão pesados e do caruncho, remetiam para um desgosto, uma amargura de séculos
passados. Os vãos das escadas eram tortos, as portinholas das janelas careciam
de argamassa, as vigas do telhado de reparações urgentes.
O pátio, apesar de amplo, não passava de
um paraíso de ervas daninhas, de árvores de fruto malcuidadas. Os aldeões eram
rudes, agrestes no trato, sempre desconfiados, as suas mulheres vestiam trapos,
negros, usavam sachos por unhas, as poucas crianças eram porcas, descalças,
feias, más, dos cães vadios que rondavam a casa à cata de sobras nem queria
ouvir falar.
A única coisa que lhe valia era a Venda
do Senhor Eduardo, onde apesar de tudo se arriscava estar, conversar com as
senhoras de mais fino calibre da Aldeia, sentar, ignorar os galanteios crus, as
piadas brejeiras e, claro está, havia o átrio da Igreja – onde podia tergiversar,
na melhor das intenções, na máxima das discrições, com o seu Pároco, Confessor,
um jovem loiro de porte greco-romano, alto, espadaúdo e de olhos azuis.
Vera Carlota deu por si, nesse longo
Inverno, a viver para as missas, as rezas, o terço, para o confessionário. Não
que tivesse assim tantos pecados dos quais devesse ser absolvida, mas era
viúva, ainda apetecível, numa terra onde escasseavam homens limpos, cultos,
bem-falantes, como o Padre José Manuel, que perdição de homem, à sua semelhança
também ele recém-chegado a Malpique. Bem-apessoado, de uma Freguesia afastada,
pelo sotaque seria do Norte, talvez de Trás-os-Montes, com um passado
misterioso, que ele próprio não se importava de ver cultivado junto da
congregação.
José Manuel dava missas de uma beleza,
de uma filigrana que nem em Cascais, ou assim o desejava ela pensar, alguma vez
pudera sentir de coração serem tão eloquentes, tão singularmente loquazes, como
eram as missas do Padre José Manuel. Tão novo, esbelto, caracóis loiros, dissertava
o Pároco longamente sobre o Pecado, sobre a Tentação, aqui e ali uma pitada de
Maria Madalena, a Virtude dos Apóstolos, a Traição de Judas, o Evangelho de
Lucas, a Virgem, o fruto do seu Ventre.
Fulminava os crentes, quando os via
desatentos, com olhos raiados, mas austeros de tão cristalinamente azúis, ou
seriam verdes, como as copas dos pinheiros bravos das fragas circundantes e por
vezes até tão cinzentos como os penhascos agrestes daquela terra, das suas
gentes, de Evangelho de Lucas, cujas máximas nunca perdia oportunidade de
recitar. O gesto, o porte, os paramentos, que paramentos!, acompanhavam o
discurso ecoante de José Manuel e que doce, tão doce, era da sua alva mão
receber, no final das missas, a pia hóstia sagrada.
O pior vinha depois. Para Vera Carlota os
domingos eram bentos e ansiados, mas os outros dias da semana passados numa
solidão angustiante, numa ansiedade por cumprir. Malpique pouco ou nada tinha
para a entreter. Contratara com uma velha dum lugarejo próximo, uma miserável,
rés, esquálida, sempre na má-língua, uma tal de Guilhermina, a lida da casa e
com um aldeão, coxo, sem eira nem beira, sobre o qual corria o boato de que não
seria bem alinhavado dos alqueires, a poda das árvores de fruto, a limpeza do quintal,
umas pinturas, umas argamassas, uns madeirames vindos de uma carpintaria de
Abrantes, aqui e acolá, consertos, arranjos, mas tudo — tudo — levava
eternidades a ser feito.
Notara, porém, que o Senhor Eduardo, o
Dono da Venda, se afeiçoara, progressivamente, dela, que era cheio de
salamaqueques, de rapapés, de vossa excelência tem desta casa tudo o que
desejar, para vossa excelência só o melhor. Não fosse ele um bruto, um boçal,
desdentado, talvez até que Vera Carlota ponderasse dar-lhe trela, vê-lo com
outros olhos, quem sabe mesmo propiciar-lhe favores de outra índole, visto ser igualmente
Eduardo viúvo.
Mas não havia nada que lhe apagasse o
fogo que a consumia, a ansiedade afogueada, apesar da chuva que lhe inundava
com cronométrica regularidade o salão de estar, o sótão, a cozinha. Os dias
decorriam-lhe numa monotonia, num quebranto, entremeados meramente pelas
refeições confeccionadas sem gosto nem sal pela gárrula da Guilhermina, pelo
deitar cedo e pelo cedo erguer, entregue ao frio, à humidade, à ausência do
ruído, de vozes, de vida, que não dos excruciantes latidos, dos uivos dos cães
vadios que tudo emporcalhavam à sua passagem.
Assim se cumpriu Dezembro e assim se fez
Janeiro. Passou a desmazelar-se. Já nem das unhas, de que tanto outrora se
orgulhava, agora cuidava, A bem dizer, para quê fazê-lo, só aos domingos vestia
as roupagens graciosas que trouxera de Cascais, só aos domingos se permitia
aperaltar-se, para o padre, para o sonho e para a vizinhança de mais valia. Foi
então que sucedeu um acontecimento completamente imprevisto, absolutamente
insólito e de consequências que até hoje perduram.
No dia 5 de Fevereiro desse ditoso ano
de 1933, que tantas mudanças prometia trazer à Nação, a megera da Guilhermina,
que lhe fazia a lida da casa e lhe tratava dos repastos, chegou-lhe ao átrio da
Igreja aos brados, num abundante linguajar, mãos para a esquerda, para a
direita, para cima e para baixo, ofegante, com excitantes novidades: fora
encontrado um corpo de um homem a boiar no riacho.
Que viesse a senhora ver, gritou-lhe
Guilhermina estridente, quase que minaz, que era um homem de fora — um
estranho! —, que se tinha encontrado um
relógio de ouro, um alfinete de gravata valioso, notas no bolso, que viera o
Guarda, que estava para chegar a Polícia da Cidade Grande!
Vera Carlota foi instantaneamente
acometida por um arrepio, não do frio das paredes de granito que há três
seculos guarneciam o abóboda da Igreja, nem do resfolegar do vento, nem da
chuva que se fazia escutar no exterior.
Rumaram todos os fiéis que a essa hora
se encontravam no átrio do Templo ao riacho, também conhecido por Rio Torto. E
era mesmo Verdade. Até o Padre José Manuel, de joelhos, com uma tristeza
infinita, se benzeu.
A Polícia da Cidade Grande chegara
também. Dois Inspectores, num Mercedes Benz de grande e fino recorte. O
alvoroço correra já pelos montes e pelos caminhos de terra batida até às
aldeias vizinhas.
Com ar de poucas falas, intransigentes, mórbidos,
os inspectores impuseram a sua presença. Encostaram logo os aldeões mais
destituídos a uma parede. O Guarda de Malpique, apesar da farda que tanta
autoridade previamente lhe transmitia, mirrara a olhos vistos e era todo ele
mesuras para com os senhores da Polícia da Capital do Distrito.
A chuva parara, mas não a neblina, essa
intensificara-se. Sucederam-se os interrogatórios. O velho coxo que podava as
árvores de Vera Carlota foi surrado à frente de todos, aos tabefes e aos
pontapés, mais para intimidar os restantes do que por outro motivo qualquer,
mas dele não extraíram qualquer confissão. Viraram-se logo para a velha anojosa
da Guilhermina linguaruda, que tanto apreciava dar conta de rumores e de
boatos. Debalde. Dela igualmente não chegaram a qualquer conclusão.
Enfadados, ordenaram a todos que se
remetessem aos seus humildes tugúrios e aos burgueses que se fizesse total
silêncio. Veio o médico legista de Abrantes e uma ambulância com uma cruz
vermelha. O Padre José Manuel, após dar a extrema unção, entrara num pranto,
quase como se o falecido fosse dele aparentado.
Os polícias, com a ajuda do médico, recolheram
o corpo e, por fim, foram-se todos, sem que qualquer conclusão para aquele
fantástico acontecimento fosse tirada, por eles ou pelos aldeãos.
Nessa noite, Vera Carlota do Livramento
fechou a casa a sete chaves e sentiu receio, desconforto, medo de adormecer.
Pois se haviam encontrado um morto, aquele morto, que não era da terra, da
terra onde nada acontecia, no Rio Torto, cascos de rolha de Malpique, que mais
poderia suceder? E logo aquele morto.
Deitou-se vestida, vestida adormeceu e
finalmente, suada, conciliou-se com o sono. Para mal dos seus pecados. Sonhou
com o morto, com o Padre José Manuel. Via-se nua, resplandecente, a receber a
bênção no seu adorado confessionário e com o morto, a sua mão gélida a puxá-la
para o riacho do Rio Torto.
Acordou molhada. Havia voltado a chover,
algo teria de ser feito em relação ao telhado, pensou, mas o pobre do velho
coxo que ela própria empregara tinha sido espancado pelos polícias e estava
acamado, cheio de febres, quem sabe não caíra sobre ele a sinistra maleita da
tísica, a doença do século.
Passaram-se dias que lhe pareceram
infindáveis sem novas de relevo, sempre a recordar-se do passado, do morto. Porém,
Malpique parecera ter regressado à sua anteriormente imutável pacatez. Até o Padre
José Manuel dera uma missa pelos falecidos, por todos os finados, a missa mais
compungida, mais solene, que alguma vez Vera Carlota escutara. Ela mesmo
contribuíra para o cesto com 10 escudos, uma quantia vista com um misto de
agrado e de surpresa pelos outros fiéis, de tão extravagante. Mas também com
alguma desconfiança.
Havia algo de diferente no trato, no ar,
na Guilhermina. Era como se houvesse vidas que chegassem ao mundo como estrelas
cadentes, destinadas a atravessar a soleira do destino do mundo sem sequer
pisarem o céu, deixando um rasto de destruição à sua passagem. À medida que se
abandalhava, imersa em sombrios pensamentos, poucos já lhe dirigiam a palavra.
A megera da Guilhermina que lhe fazia a
lida da casa, antes tão verborraica, calava-se agora, fazia os seus deveres a
contragosto, exigia pagamento a pronto, andava de maus modos, a comida
malcozida. Os petizes dos pés descalços, a quem dantes oferecia rebuçados,
evitavam-na, fugiam dela. Até o Eduardo da Venda lhe franzia o sobrolho e o
único cão que ouvia latir, pior, uivar de madrugada, era um gigante que
assombrava o Rio Torto, onde haviam descoberto o morto.
Encontrava alguma consolação nas missas,
mas o Padre José Manuel, dantes tão compreensivo, caridoso, ainda e sempre
atencioso, começara a tratá-la com estudada indiferença e parecia ele próprio
ter perdido a chama da vida, das homílias, já nem os Salmos recitava.
Chegou o fim do mês de Fevereiro. 1933
foi ano bissexto. O dia 29 de Fevereiro ficará para sempre inscrito em
caligrafia sombreada na triste História da Aldeia de Malpique. Foi o dia da
morte de Vera Carlota do Livramento.
Uns dizem que foi feita Justiça.
Consultei a pouca documentação que ainda existe. Que se matou uma assassina, é
o que ficou deduzido para a posterioridade. Outras fontes, coevas, afirmam que
não, que a pobre da mulher, quiçá emancipada em demasia para a época, apenas
tinha em comum com o morto encontrado em Rio Torto ser também ela uma estranha
à Aldeia. Também ela. E que tinha medo, muito medo de cães.
No Verão de 2023 passei pela casa que
dizem ter sido a de Vera Carlota do Livramento, agora em ruínas, uma casa que
aparentava ter sido de fidalguia, de abastança.
Lá se encontra ainda hoje, gravado num
azulejo, esmaecido pela usura do tempo, em letras garrafais, numa das paredes
que sobrou, quase 100 anos depois, a seguinte frase: Casa Dos Assassinos. As
letras no azulejo não são escorreitas, pelo contrário, parecem escritas por uma
criança ou por alguém que tenha aprendido a escrever muito tardiamente.
O mistério permanece e nenhuma das
pessoas idosas que sobraram, os tais petizes dos pés descalços, agora velhinhos,
que só caminham com o auxílio de andarilhos e com quem tive o prazer de
conversar, longamente, em Malpique e nos lugarejos vizinhos, dele se deseja
recordar.
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