Adérito Romeu Caravau Pintado tinha 16 anos quando se fez à vida. Oriundo de Trás-os-Montes, para lá do Marão, Freixo de Espada à Cinta, cansara-se de ser vítima dos que lá mandavam e que, curiosamente ou não, ainda hoje, lá mandam. Em França, na Flandres, um dos seus dois irmãos morrera em 1917, por uma bala alemã.
Farto de levar porrada do pai, um fiscal
aduaneiro que nas horas vagas perseguia contrabandistas, com uma apetência
notória para a vinhaça e para a violência, fugira do recrutamento compulsório e
dera com os costados, sem saber bem como, na então Vila de Abrantes.
De início, não sabia o que fazer e mais
a mais fora parar pela linha de comboio justamente à porta de um Quartel Militar
de Cavalaria. Adérito Romeu nada queria ter a ver com a tropa, já lhe bastava
ter perdido o irmão mais velho, ser arrebanhado para morrer no estrangeiro ou
definhar em Tancos não era de todo a sua ambição.
De madrugada, cheio de fome e a tiritar
de frio, foi bater à porta de um marceneiro. Este, de seu nome Carlos António
Cabral, um reputado mulherengo, dizia-se à boca pequena na tasca onde Adérito
custeara a sua parca refeição, era não só marceneiro — do qual rezavam as más
línguas — mas também vigarista, solteirão empedernido e de maus fígados
violento.
Contudo, o dito marceneiro, homem para
os seus quarentas e muitos, talvez cinquentas, pareceu apiedar-se de Adérito,
àquela hora tão matinal, ainda o orvalho mal descongelava das telhas do seu
casebre, acolhendo o jovem desertor com o braço aberto e dando-lhe sustância de
comer.
Adérito encontrava-se perdido, como um
bote sem vela e sem leme à deriva, mas era um rapaz robusto. Alto, bem
parecido, cabelo aloirado, olhos azuis, via-se que tinha ganas de singrar na
vida, que tinha futuro. O marceneiro, que nunca tivera filhos e que há muito
procurava um rapaz que o ajudasse a expandir a carpintaria, bem como para
tratar de outros assuntos, foi rápido nos seus cálculos. Em poucos dias, a
troco de dormida e alimentação, Adérito passou a ser seu aprendiz.
A vida da carpintaria não era fácil, os
clientes não abundavam e a mais das vezes era preciso limpar o pó das mesas,
cadeiras, cómodas, armários, estantes, serrar vigas, espetar pregos de aço em
calços de chumbo, outra coisa qualquer, até mesmo espantar as moscas das sacas
de sobras de serradura e o patrão, como se habituara a chamá-lo sem nunca o
dizer em voz alta, nem sempre o tratava bem, às vezes batia-lhe, sem grande
esforço e bem visto sem o magoar, com o cabo de uma sachola que tinha sempre à
mão de semear.
Na casa do marceneiro, o rancho, em tais
circunstâncias, era também exíguo, mais água do que pão, faltava-lhe o sal, mais
feijão do que carne, sopas de vinho ou de cavalo cansado ao pequeno almoço, mas,
para um jovem fugitivo, um desertor do interior Norte, com poucos ou quase
nenhuns estudos, embora tivesse as primeiras letras, procurado pela Autoridade,
tal não era novidade. A bem dizer, até a Adérito lhe convinha o arranjo. O
patrão tinha o dobro ou mais do que a sua idade. Que era mau quando queria,
isso sabia-o bem. Todavia, Adérito estava lançado, era rápido na aprendizagem
da profissão, esperto que nem um alho, sabia ver, sabia ouvir e sabia fazer, sem
que o seu Mestre precisasse de lhe mostrar duas vezes.
Um dia, o marceneiro surpreendeu-o com
uma proposta inusitada. Convidou-o para ir com ele a uma casa de meninas, para
aproveitar o que vida tinha de bom, que ele iria gostar, que merecia um prémio
por ser tão diligente aprendiz. Desconcertado, Adérito hesitou, mas viu-se na
contingência do sobrolho carregado do mestre e que remédio teve que não o de
aceitar, a bem dizer, apesar do seu espanto inicial, o mestre é que iria custear
a despesa.
Chegados ao local, Adérito viu-se
inundado em perfumes baratos, ligas, meias de nylon, corpetes, fumo de tabaco,
espartilhos, bafos de bebida, mulheres demasiado velhas e pintadas como a cera
das madeiras dos mais finos móveis da carpintaria, daqueles que se arranjavam
por encomenda especial para a burguesia.
Entre um copo e outro o mestre puxava
por ele, olha aqui a Mariete, não te agrada?... A Mariete, uma morenaça roliça,
olhos castanhos avelã de morrer por mais, porém já gasta, mas cobiçosa de
dinheiro e do jovem adónis, acenava que sim, que lhe queria dar todo, todo o
seu amor.
Adérito, pouco acostumado ou mesmo nada
à presença de senhoras de fraca reputação, tremia que nem varas verdes. Contudo,
o mestre insistia e com mais um copo de uma bebida que nunca lhe havia passado
pelo estreito, meio tonto, aos ziguezagues, Adérito lá se dirigiu, pela mão de
Mariete, ao quarto.
Carlos António Cabral, assim dizia
chamar-se o marceneiro, aguardou pacientemente. Por fim, emergiram ambos do
quarto, qual submarino de pavor. Mariete vinha com cara de poucos amigos,
insatisfeita e Adérito com o rosto vermelho que nem um tomate rubro em dia de
feira de mercado municipal.
Mariete estendeu a mão ríspida e exigiu,
com sobranceria, quase que ofendida, o pagamento. Ao virar as costas aos dois
homens gritou-lhes: Nunca mais me tragas este, nem para emprenhar moscas serve!
Carlos casquinou e Adérito, se um buraco, um cemitério tivesse, ter-se-ia nesse
exacto momento enterrado.
O desânimo do jovem era total, absoluto,
nunca fora tão enxovalhado na sua curta existência. O fardo do fiasco
pesava-lhe mais do que se tivesse sido catado para o exército e levado à força para
a Flandres, como o irmão, para a morte mais do que certa. Saíram para o frio da
noite. Carlos ia reconfortando o moço: Olha, não fiques assim, se és paneleiro
podes sempre ir para Padre. E Adérito, abatido com mais essa estocada, costas encurvadas,
nariz no chão, os olhos marejados de lágrimas, de vergonha, de pesar: Eu, para
Padre, Mestre?...
Sim, tu, para Padre, nunca leste ou
nunca fingiste ler a Bíblia? Li, pois, retrucou Adérito, subitamente irado, ressentido
nos seus brios, ele sabia as suas Letras, que Diabo, em Freixo haviam sido os
padres do mosteiro que o tinham educado quando não levava porrada do pai! Conheço
o Evangelho de Lucas de fio a pavio! Sei os Salmos, sei do Pecado! Sei tudo —
exclamou, numa voz trucidada que pretendera mais segura.
Ora nem mais, não te preocupes, vais
para Padre que eu te quero ajudar, amanhã vamos a Leiria, há lá um cónego que
me deve favores e, vais ver, em menos de nada estás Padre de igreja montada,
anima-te meu rapaz, confia em mim — sorriu Carlos para Adérito, os olhinhos
semicerrados, ainda mais frios do que a humidade trespassante da noite, de modo
tão ameaçador, contundente, quanto assertivo.
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