Friday, March 14, 2025

A Espingarda do Homem Morto

Carlos António Cabral, o nome a que com o tempo se afeiçoara, era chulo. Desde que se lembrava de existir sempre fora chulo. Aproveitava-se das mulheres, seduzia-as e, inevitavelmente, após as ter na mão, punha-as a render, antes de as descartar como se fossem jornais velhos. Trabalhava primordialmente na zona de Cascais, era aí que catava as finas, as giraças sofisticadas, com a mania de que sabiam tudo, que caiam sempre nos seus contos do vigário; ora ele passava por um barão da indústria que tinha o dinheiro todo empatado nos caminhos de ferro em África, ora por herdeiro de um conde minhoto que recusava sustentar o filho, fosse o que fosse, atirava-se sempre às que rendiam mais dinheiro, era só viciá-las em narcóticos et voilá, putas à discrição.

Dinheiro esse que sustentava o seu estilo de vida extravagante. Vestia bem, possuía um relógio de bolso em ouro maciço, um alfinete de gravata cravejado de diamantes, fazia as unhas, a brilhantina, o chapéu da moda e de tempos a tempos também limpava uns tolinhos tansos no Casino do Estoril.

Naturalmente, andava sempre armado. Tinha um revólver 32 de fabrico inglês, perfeito para o seu coldre de sovaqueira, uma pistola Lugger alemã, discreta na bainha das calças e até uma espingarda Smith & Wesson, mas essa só a usava por divertimento, quando se via aborrecido e sem mais nada com que ocupar o seu tempo ou, por contraponto, nalgum serviço ocasional de despachar discretamente alguém e por tanto ou tão pouco receber um bónus extra.

A vida corria-lhe bem, o Sidónio Pais tinha vindo e ido, servicinho no qual desempenhara o seu devido papel, a República idem aspas aspas e a Ditadura tinha-se imposto sem grande fragor. Tudo parecia correr-lhe de feição e pensava já em reformar-se. Acumulara uma soma considerável, ponderava retirar-se ou continuar o seu acto em grande, na Riviera francesa.

Foi aí que tudo desabou. A sua última conquista, uma jovem, voluptuosa, lábios grossos, casada com um jogador de poker muito pouco inteligente, confrontada com o suicídio do marido, resolvera chibar-se dele à Lei. Carlos foi de cadeia para o Linhó. Na prisão aprendeu o ofício da carpintaria e cumpriu o seu tempo. Para além do relógio de ouro, do alfinete de brilhantes e da espingarda Smith & Wesson, que atempadamente colocara em mão que lhe sabia fiel, e a bom recato, estava com quarenta e sete anos, desgastado, amargurado e, pior, prematuramente envelhecido, ainda que possuído por um enorme desejo de vingança.

No dia da libertação foi direito que nem um fuso à estação de Santa Apolónia, com os míseros escudos que amealhara na cadeia pôs-se logo no primeiro comboio da linha do Norte. Desceu no Entroncamento e foi visitar um tal de Valério, um velho companheiro de golpadas que por ali se estabelecera e que lhe havia religiosamente guardado os pertences.

Valério nem queria acreditar quando o amigo lhe bateu à porta. Após uma caldeirada de rojões com arroz, cenouras, favas e dois copos de três, Valério foi buscar ao esconderijo a espingarda, o alfinete e o relógio de ouro. O amigo tinha envelhecido e quase que a aparência de Carlos lhe metia medo, mas escusou-se a mais comentários e até lhe emprestou 500 paus, em memória dos bons velhos tempos. Ao despedirem-se, abraçou-o, perguntando: E agora? A resposta, crua, sibilina, foi para o destemperado Valério simples de prever. Agora vou vingar-me, respondeu Carlos. Sem mais detalhes, num tom totalmente impessoal, um olhar entre amigos valia tudo, Valério casquinou, apertou a mão ao companheiro e quedou-se na soleira da porta da sua casa a vê-lo entrar na bruma nocturna de volta à estação de onde tinha chegado, intimamente aliviado por saber que tão cedo não se voltaria a cruzar com aquela tenebrosa partícula do Demo que aprendera a tratar por tu.

Ao chegar a Abrantes, com os 500 escudos, Carlos alugou uns casebres e um armazém perto do Quartel. Quinhentos escudos não o levariam longe e estava bem consciente disso. Porém, tinha o seu mister de carpintaria, com o resto do dinheiro que Valério lhe dera comprou serras, martelos, pregos, réguas de nível, pesos, tábuas, limas, madeiras de cedro, de carvalho. Anunciou o negócio nas tabernas, no quartel, nas vendas, na câmara, na junta e aguardou.

Não tinha pressa, Carlos António Cabral sabia muito bem onde encontrar a puta que lhe dera cabo da vida, mas primeiro havia de precaver-se, jurara a si próprio nunca mais regressar à prisão. Guardou a espingarda, sempre bem oleada, as munições, o relógio e o alfinete de gravata. Iria precisar de tudo isso no dia em que colocasse um ponto final no passado.

O negócio arrancou. Apesar das tatuagens que um preto de Angola lhe fizera nos antebraços, na sua estadia forçada no Linhó, que com ele havia partilhado malga e cela, como era bom a lidar com madeira e aparentemente de uma honestidade franca, sã, em breve foi aceite pela generalidade da sociedade abrantina, dos camponeses aos lojistas e ao burguês.

Sendo homem e apesar da meia idade ainda válido, com aquele charme que só os cinquentões podem ter, com vigor e necessidades, por vezes ia às meninas, por vezes trepava as esposas dos fregueses mais incautos, sempre com extremas cautelas, já que não se podia dar ao luxo de voltar a ter problemas com a Lei.

O tempo passou e à medida que o tempo passava, entre mesas, estantes, cómodas, armários, aparadores, cadeiras e coxas, começou a delinear o seu plano. Enquanto isso, o negócio prosperava, já não tinha mão para as encomendas, a serrilha e o pó entupiam-lhe os brônquios, cansava-se e não conseguia dar vazão a todas.

Foi então, numa madrugada gélida de Fevereiro, que o destino interveio de novo. Para além da espingarda, do relógio, do alfinete, de um fato de linho e de um clássico chapéu de velcro, que, entretanto, comprara numa viagem incógnita à vila de Alcobaça, suficientemente longe de ouvidos, de olhares indiscretos, havia acabado de encontrar, na forma de um mocetão loiro, de olhos azuis, magro e faminto, o instrumento perfeito para consumar a sua vingança.

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