O Cónego Artur de Sousa Coutinho era um
homem de peso, em ambos os sentidos da palavra, na toda poderosa Diocese de
Leiria. Rubicundo, quase com 60 anos de idade, nenhum assunto da Religião lhe
passava ao lado e todos sabiam que até o Bispo com ele se confessava. Segundo
filho de uma família heráldica de Vila Nova de Cerveira, no Minho, os famosos
Sousa Coutinhos, já em 1900, na entrada do século XX, arrastava a sotaina pelas
galerias do Vaticano, em Roma.
O 5 de Outubro de 1910 apanhara-o na
capital, Capelão oficial da Sé Nova tinha o ouvido dos Nobres, de João Franco e
até, constava, da própria Rainha Mãe, mas tivera, em rectidão face ao
anticlericalismo dos revolucionários, de fugir a mata cavalos para Braga.
Na cidade dos arcebispos fez e renovou
muitas amizades, intrigou quanto bastasse e rapidamente subiu na Hierarquia. Em
1920 regressou a Lisboa e a muitas mais boas obras, após o homicídio de Sidónio
Pais, com zelo, esmero e ebuliente abnegação, se dedicou. Tratava-se de esmigalhar
os infiéis, os Bernardinos Machados, os Teófilos Bragas, e todos os outros, os anarquistas
fanáticos, que só traziam na esteira o Pecado, a desordem, a corrupção.
Não obstante, o seu fervor não se
quedava pelos conteúdos da Política e do Espírito. Dava missa na Igreja dos
Prazeres, em Cascais. Já pesado, mas ainda não gordo, eram sermões
irrepreensíveis e de rara eloquência, com uma tonsura de fazer inveja, botins
de veludo, a sotaina sempre imaculada e os paramentos, esses, esses tinham
vindo de Roma.
Algumas devotas perseguiam-no, às vezes
quase que se deixava resvalar, tinha sede, tinha fome, mas os votos que
prestara a Deus logravam, mesmo que com grande arduidade, impedi-lo de ceder à
Tentação.
Um dos paroquianos em particular, um tal
de Carlos António Cabral, dos Cabrais do Mindelo, Condes por El Rei Dom João VI,
que frequentava as suas missas dominicais com expressa beatitude e devoção,
sempre muito bem posto, generoso na farta esmola aos coitadinhos, aos órfãos e
aos inválidos, relógio no colete do fato em ouro, alfinete de gravata que se
notava ser de prata e de brilhantes, preciosos, um dia quis-lhe apresentar uma
prima, que lhe sussurrou ser prima direita, sua protegida, uma jovem casta,
pia, baixinha, roliça, morena, olhos de garça, chamada Mariete Augustina de
Mello Cabral.
Não demorou muito até Artur de Sousa
Coutinho passar a ser confessor da jovem e ainda demorou menos a enrolar-se com
ela, a gozar que nem um impio, num regabofe que faria corar o mais devasso dos
devassos, deste mundo ou de outro, o debaixo. Depois, foram os bilhetinhos. As
cartas de amor eterno e de garantias de que se não fosse do Clero assumiria o
amor perpétuo que por Mariete professava, desbragado que se via, louco de tanta
beleza, de tanta luxúria, de tanta libertinagem.
Como era previsível, esses bilhetinhos,
essas cartas, escritas e assinadas pelo seu próprio punho, no papel timbrado da
Sé Nova, bem como outras indiscrições, das quais havia testemunhas credíveis, rapidamente
se viraram contra si.
Carlos Cabral, numa bela tarde de
domingo, solarenga, após a missa onde não estivera presente, sem avisar, aparentando
apopléctica indignação, entrou-lhe pela Sacristia adentro e ameaçou-o com um
processo, com a Gazeta da Capital, com os Vespertinos, com o Bispo! Que não,
que não, que era um equívoco, que o Senhor Conde não o podia desgraçar, que
faria tudo por ele!
E o Senhor Conde, claro está, em virtude
do seu carácter piedoso, da sua devoção para com Cristo, para com a Virgem
avistada pelos Pastorinhos em Fátima, resolveu perdoar a desonra feita à prima,
mas avisou o cónego de que ficava com os bilhetinhos, com as cartas e que tinha
testemunhos notariados ainda mais comprometedores.
Quando Artur recebeu a notícia de que o
conde, que afinal não era conde, havia sido preso, suspirou de alívio. Porém,
pelo sim e pelo não, foi visitá-lo ao Linhó, alegando querer prestar conforto
espiritual a um pobre pecador que já se arrependera das suas vis embora
ingénuas acções e até intercedeu favoravelmente junto do director do presídio. Assim
ficou, ou pensava Artur, o assunto esquecido, resolvido, enterrado, sepultado,
no Linhó.
Haviam-se passado muitos anos desde
então. Artur mudara-se para Leiria. A sua influência crescera, a barriga em
igual ou superior proporção, a adoração das beatas, apesar daquele livreco asqueroso
que o Queiróz escrevera, o crime do padre não sei das quantas, era para si um
mar de delícias, de cetins, de rendas vermelhas, de botins aveludados e a vida
na Diocese doce, muito doce; uma chatice ter que dar missa todos os domingos,
mas enfim, com isso podia ele bem.
Naquele fim de tarde, ao acabar de
proferir uma Homília que lhe custara duas horas e meia de roda das Sagradas
Escrituras e após todos os fiéis, na Paz de Cristo, se terem irmãmente saudado,
sentiu abruptamente um calafrio pela espinha acima. Na última fila da nave da
Igreja encontravam-se dois homens. Um rapaz, jovem, loiro, porte digno e outro,
muito mais velho, grisalho, escorado num sorriso escarninho, trocista, o qual
não podia deixar de ser nem mais nem menos do que o “conde”.
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