Wednesday, March 12, 2025

O Cão de Rio Torto

Gustavo Tumba nascera no Congo Belga. Preto, aos 12 anos já andava de catana na mão, a matar os brancos que tudo levavam à frente na grande partição de África. Sofrera muito às mãos dos belgas do Rei Leopoldo, um criminoso que ocupara a sua Nação e que só muito mais tarde foi repudiado, até pelos seus próprios concidadãos. No dealbar da Primeira Guerra Mundial, Gustavo passou-se de armas e bagagens para território angolano, então parte do império colonial português, para o exclave de Cabinda, onde sonhou criar raízes e uma família. Porém, como lhe foi dito por um Soba de Cabinda, homem sábio, chefe de clã, esse não seria o seu destino, as suas andanças levá-lo-iam para longe, para muito longe da sua terra.

Mal tinha chegado e já era recrutado pelos portugueses, para um batalhão de caçadores de reconhecimento, nativos, parte de uma manobra mais ampla, que visava pôr cobro às incursões dos alemães da Namíbia. Fez milhares de quilómetros de comboio, a pé, em marcha forçada, apenas para que o batalhão chegasse atrasado, quando dos malditos alemães da Namíbia já nem sombra havia. Também, com aquele sol, era difícil.

Um dos oficiais, um tenente branco, um dos poucos que era homem prático, ambicioso, desembaraçado, viu nele potencial. Gustavo Tumba media mais de dois metros, pesava a brincar 120 quilos, mas era ágil como uma raposa, silencioso como um gato e letal como um elefante. O seu sobrenome, aliás, pegara e colara, quando o batalhão foi deslocado para a actual Zâmbia e finalmente encontraram os alemães do famoso general Paul Von Lettow-Vorbeck.

Gustavo despachou tantos ou tão poucos dos Ascaris alemães que os companheiros e os oficiais o passaram a considerar o homem mais mortífero do exército português de África e daí o sobrenome Tumba; por onde Gustavo passasse, era certo e sabido que alguém acabaria enterrado.

O tenente português já de Tumba não prescindia, promoveu-o, fez dele Primeiro Cabo, seu Ordenança pessoal, consultava-o no entendimento das cartas geográficas, deu-lhe até para lhe ensinar a ler e a escrever.

Os dois faziam uma equipa de sonho, o tenente era liderança, poder e no mato e na savana não havia homem mais arguto, perspicaz, atento, do que Gustavo. Na aprendizagem das primeiras letras o preto espantava a todos com a facilidade da caligrafia, da pronúncia, do vossa excelência é que sabe, do vossa mercê não está a ver o bicho, do tu tenente não achas que é melhor irmos por aquela picada?...

Todos os dias surpreendia o seu inusitado professor e todos os dias o protegia a ele e ao batalhão indígena dos caçadores angolanos, apesar de as baixas, por vezes, serem pesadas.

Veio o fim da guerra e o tenente pensou para com os botões da farda que em breve teria de regressar à sua cidade natal, Peso da Régua, via paquete primeiro, longa viagem, e comboio depois. Afeiçoara-se imenso ao negro. Com Gustavo sentia-se sempre seguro, nem uma beliscadura sofrera em quase dois anos de guerra, nem cólera ou malária, o preto velava, antecipava o inimigo, fosse este homem, bicho, água infecta ou insecto.

Viram-se em Luanda. O Regimento ia ser desmobilizado e os nativos seriam remetidos às suas terras de origem, desenraizados, haviam-se batido e morrido para nada. Gustavo só perscrutava o vazio, quem sabe um futuro de saque e de pilhagem. O Soba bem que lhe dissera que o seu destino não só era incerto como o levaria para muito longe de África.

O tenente resolveu fazer-lhe uma proposta: viria com ele conhecer a Pátria Mãe pela qual tanto se batera. Ver Portugal, ser seu homem de mão, trabalhar como caseiro, com rendas, quem sabe até arranjar uma branca que pudesse emprenhar e ser no velho mundo por fim feliz. Gustavo aceitou. O tenente era um homem sério e a ideia de ver finalmente Portugal, a terra misteriosa de que tanto o tenente falava, pela qual tanto sangue vertera e pela qual tantos homens matara, parecia-lhe uma oportunidade única, dourada.

Embarcaram no Albertville, posteriormente renomeado “Angola”, paquete de valor, rumo a Lisboa, apenas em 1922 e a viagem não foi fácil. Primeiro, uma das três caldeiras do vapor deixou de estar operacional, o que reduziu a velocidade para uns meros 10 nós. Depois, sobreveio uma tempestade. Carregado de passageiros, de borracha e de café, o Albertville quase foi a pique.

No tombadilho, Gustavo Tumba, que de marinheiro nada tinha, passava os dias a vomitar. Veio a doença, a tisica, ou a peste branca, mas, felizmente para ele, era preto. Ao finalmente aportarem na escala de Bissau já tinham morrido mais de 30 passageiros e 3 membros da tripulação. O tenente tossia e emagrecia a olhos vistos.

Consertada a caldeira, renovadas as provisões, o Albertville fez-se de novo ao mar. Ao largo das Ilhas Canárias não se escutava um pio, a calmaria era total mas em breve se abateu sobre eles nova e ainda mais furiosa tormenta. Uma das hélices soltou-se. Quase sem propulsão, o Albertville, onde a tísica ou a peste branca andavam à solta, lá se arrastou até à barra do Tejo. Gustavo perdera 20 quilos e o tenente passara a tossir sangue. Perto do Forte de São Lourenço da Cabeça Seca, ou Farol do Bugio, veio um piloto da barra e um médico. Foi ordenada a quarentena do Albertville e o capitão forçado a retroceder e fundear na Baía de Cascais.

Quarenta dias depois foram finalmente autorizados a entrar no porto. Era demasiado tarde para o tenente, que falecera nos braços de Gustavo. Louco de dor, consumido pela perda do seu protector e do seu único amigo, Gustavo entrou num transe violento, ululante, partiu a cabeça ao Imediato e foram necessários seis marinheiros para o dominarem.

Em terra, totalmente só, rodeado de brancos e de brancas que o insultavam, aos gritos de belzebú, belzebú, preto, preto, preto, espancado pelos guardas, cuspido pelos locais, foi presente ao Meirinho. Dorido e ensanguentado, logo ali apanhou sem apelo nem agravo 10 anos no Linhó.

No presidio espetaram com Gustavo Tumba numa cela com um branco. Os guardas riam, gozavam, esperam talvez que o preto matasse o branco ou vice-versa. Surpreendentemente, o branco ajudou-o a sarar das sevicias a que fora submetido. Arranjava comida, recebia visitas, de uma mulher bonita e até de um padre, tinha privilégios, ao contrário de Gustavo trabalhava na oficina da cadeia, fazia coisas em madeira, mesas, cadeiras. Esse branco era finório, respeitado, subornava os guardas, tomou-o debaixo da sua asa, protegeu-o dos outros, esse branco chamava-se Carlos António Cabral.

Com o passar do tempo, recordando as lições do mato, da savana e o que via do seu companheiro de cela, Gustavo aprendeu as manhas daquela nova selva. Passaram a extorquir os outros presos e às vezes a sová-los.

A mulher que visitava o companheiro trazia narcóticos, que vendiam aos outros presos e até a guardas, para os incriminar. Em suma, ao fim de três anos, Gustavo Tumba e Carlos António Cabral, Senhor Carlos, como todos o tratavam, até o director, eram unha com carne. 

Não que tudo fossem flores, bem pelo contrário. Em certa ocasião, o companheiro foi apanhado com a droga, espancado, roubado e ficou dois meses na solitária. Partiram-lhe os dentes de cima todos. Noutra, calhou a Gustavo levar com um gorila, um francês que odiava pretos, grande como um arranha céus dos que havia na América, que lhe deu um enxerto de porrada que o atirou por dois meses para a enfermaria. 

Os anos passavam, não havia esperança de ser caseiro, de conhecer Portugal, de emprenhar uma branca, tinha saudades do seu tenente. Cobiçava Mariete, mas essa era do chefe e não havia mais nenhuma. A Carlos António Cabral não lhe passava despercebido que o negro tinha ânsias da sua gaja e começou a intrigar contra ele. A sociedade entre branco e negro estava posta em causa.

O Chefe gozava-o abertamente, até perante os outros: pareces um cão, um cão preto! E Gustavo, que nunca vira cães em África, de cães só lhes conhecia a palavra que o tenente lhe ensinara, que eram como as zebras, mas mais pequenos, ficava perplexo, sem perceber.

À medida que se aproximava o dia da libertação do chefe mais este o gozava, estava sempre no gozo, nunca esticando demasiado a corda, sempre precisando da segurança imponente que Gustavo lhe propiciava, mas sempre no gozo, constantemente fazendo pouco dele, lá vai o cão fazer o serviço do mestre, que belo cão preto é este!

No dia em que Carlos António Cabral foi solto a Gustavo Tumba ainda lhe faltavam pelo menos seis meses. Ao despedir-se, o chefe, maligno, arranjou maneira de o francês ir para a cela de Gustavo. Nessa mesma noite Gustavo levou um enfardamento para ninguém botar defeito, mas o francês também não se ficou a rir.

Na enfermaria do Linhó outra vez, o preto, quase que verde de raiva, jurou a si próprio que se vingaria. Nunca seria caseiro, nunca teria rendas nem emprenharia brancas, estava ciente disso. Todavia, arranjaria um cão, um cão grande, mau e mais tarde ou mais cedo sabia que ia encontrar a pista do chefe, onde quer que este se tivesse dirigido.

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