Tuesday, March 11, 2025

O Sargento de Santa Margarida

Meses após a minha primeira estadia em Malpique, conheci por fim uma personagem singular: o Sargento Meireles. Os dois idosos que mencionei no conto primeiro desta antologia e que não se queriam abrir muito em confidências tinham, apesar do seu mutismo inicial, referido que se havia alguém com quem eu devesse conversar sobre acontecimentos que não queriam, não deviam e dos quais não se podiam recordar, visto terem feito voto de silêncio para com um padre falecido fazia décadas, esse alguém era uma espécie de historiador amador que há muito se radicara na Aldeia da Portela de Santa Margarida, povoado vizinho a Malpique, perto da célebre Base do Exército, de seu nome Augusto Meireles, ex-militar de carreira. 

Esse homem, o qual por fim encontrei, é uma pessoa que fez a guerra colonial na Guiné, acompanhou o Salgueiro Maia, ainda era apenas cabo lanceiro, naquela louca, mas abençoada cavalgada dos capitães de Santarém até Lisboa, em Abril de 1974, e que, muito antes disso, passara pela recruta no já mencionado Campo de Tiro de Santa Margarida.

Hoje aposentado, viúvo, à borda dos 97 anos, pai de filhos, com netos, bisnetos, trisnetos, Augusto Meireles reside muito próximo da base militar e recorda-se da história da senhora assassina (ou assassinada). Ouviu falar por alto de um chulo, um pulha abatido à queima roupa, de um padre que era tudo menos cristão, de um preto e de um cão.

Falou-me da lenda do cão, indicou-me placa da casa, asseverou que o padre afinal não seria assim tão casto quanto parecia; disse que em 1962 ainda se falava em Santa Margarida com temor de um negro retinto, do qual a única coisa que me confirmou ter-lhe sido contado foi que o nome do negro em causa era de facto Gustavo, Gustavo Tumba.

Aparentemente, o preto ter-se-á sumido da terra logo após os crimes praticados em 1933, verdade, mito ou lenda não se sabe, para nunca mais voltar a ser visto.

O sargento Meireles garantiu que não o chegou a conhecer, mas lembrava-se de que constava, entre os praças, à data da sua primeira incorporação em Santa Margarida, ainda era ele rapaz, mancebo, que o preto Tumba tinha um cão; um mastim vermelho, talvez um doberman arraçado, talvez um rotwiller cruzado com pastor alemão.

Dizia-se em surdina que o cão rondava um riacho próximo, o de Rio Torto, nas margens do qual eu próprio estive, cujas águas revoltas contemplei e que, nas noites de densa névoa, de frio excruciante, de chuva, do Inverno, uivava tão lancinante que até na caserna, prestando-se a devida atenção, podiam os seus latidos serem escutado pelos praças mais predispostos aos tópicos da superstição.

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