Meses após a minha primeira estadia em
Malpique, conheci por fim uma personagem singular: o Sargento Meireles. Os
dois idosos que mencionei no conto primeiro desta antologia e que não se
queriam abrir muito em confidências tinham, apesar do seu mutismo inicial, referido
que se havia alguém com quem eu devesse conversar sobre acontecimentos que não
queriam, não deviam e dos quais não se podiam recordar, visto terem feito voto
de silêncio para com um padre falecido fazia décadas, esse alguém era uma
espécie de historiador amador que há muito se radicara na Aldeia da Portela de
Santa Margarida, povoado vizinho a Malpique, perto da célebre Base do Exército,
de seu nome Augusto Meireles, ex-militar de carreira.
Esse homem, o qual por fim encontrei, é uma
pessoa que fez a guerra colonial na Guiné, acompanhou o Salgueiro Maia, ainda
era apenas cabo lanceiro, naquela louca, mas abençoada cavalgada dos capitães
de Santarém até Lisboa, em Abril de 1974, e que, muito antes disso, passara
pela recruta no já mencionado Campo de Tiro de Santa Margarida.
Hoje aposentado, viúvo, à borda dos 97
anos, pai de filhos, com netos, bisnetos, trisnetos, Augusto Meireles reside
muito próximo da base militar e recorda-se da história da senhora assassina (ou
assassinada). Ouviu falar por alto de um chulo, um pulha abatido à queima
roupa, de um padre que era tudo menos cristão, de um preto e de um cão.
Falou-me da lenda do cão, indicou-me
placa da casa, asseverou que o padre afinal não seria assim tão casto quanto
parecia; disse que em 1962 ainda se falava em Santa Margarida com temor de um
negro retinto, do qual a única coisa que me confirmou ter-lhe sido contado foi que
o nome do negro em causa era de facto Gustavo, Gustavo Tumba.
Aparentemente, o preto ter-se-á sumido
da terra logo após os crimes praticados em 1933, verdade, mito ou lenda não se
sabe, para nunca mais voltar a ser visto.
O sargento Meireles garantiu que não o chegou
a conhecer, mas lembrava-se de que constava, entre os praças, à data da sua
primeira incorporação em Santa Margarida, ainda era ele rapaz, mancebo, que o
preto Tumba tinha um cão; um mastim vermelho, talvez um doberman arraçado,
talvez um rotwiller cruzado com pastor alemão.
Dizia-se em surdina que o cão rondava um
riacho próximo, o de Rio Torto, nas margens do qual eu próprio estive, cujas
águas revoltas contemplei e que, nas noites de densa névoa, de frio excruciante,
de chuva, do Inverno, uivava tão lancinante que até na caserna, prestando-se a
devida atenção, podiam os seus latidos serem escutado pelos praças mais
predispostos aos tópicos da superstição.
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