Monday, March 10, 2025

Amor em Casais Robustos

Todas as histórias e todos os passados que pesquisei, dos Arquivos da Torre do Tombo até aos da Companhia Nacional da Borracha (CNB-CAMAC), passando pelos das Dioceses, das Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, pelos registos de Estabelecimentos Prisionais, que remontam somente a 1939, levaram-me a concluir que haverá coisas melhor perdidas do que encontradas e por outro lado fizeram-me constatar o quão efémera é esta nossa transitória passagem pelo mundo e pelas vidas de todos os outros homens ou mulheres, passados, presentes ou futuros. 

O quão frágil e às vezes cativa por acontecimentos que de todo controlamos, apesar de pensarmos o contrário, de nos julgarmos mestres, donos, senhores dos nossos destinos, é esta odisseia fantástica, esta aventura maravilhosa a que chamamos A Vida.

Após dois anos em busca do verdadeiro assassino (ou assassina ou assassinos) de Malpique, muitas dúvidas e poucas certezas me restam. Cheguei lentamente à conclusão de que o meu tempo é demasiado precioso para prosseguir com as minhas averiguações, as quais inevitavelmente não poderiam senão mais do que conduzir-me a becos sem saída.

No fim de contas, as histórias, as aspirações, os desejos, as intrigas, os medos, os receios, os ciúmes, as invejas, os crimes e as fantasias sobre as quais me debrucei pertencem a um passado distante. Quem sou eu para o querer escrutinar à lupa do século XXI?

Ademais, tenho uma mulher que me ama à minha espera, uma mulher que eu, na minha busca obsessiva pela verdade — tão elusiva — dum passado que me é pessoalmente tão próximo quanto distante, embora não a tendo menosprezado, tenho-a de algum modo descurado.

Trago também duas alianças no bolso que comprei numa ourivesaria da moderna cidade de Abrantes e que bela é hoje essa jóia, onde o Tejo e o Zêzere se encontram. Essa mulher é, tal e qual como eu, também ela, robusta, forte e tenho a certeza de que haveremos de fazer um belo casal.

A verdade é que, lá porque me chamo Jorge António Cabral, e lá porque muito provavelmente o meu avô paterno se chamava Carlos António Cabral, um homem que terá tido um caso com uma mulher chamada Vera Carlota do Livramento e lá porque ambos desapareceram deste mundo envoltos em trágicas circunstâncias, que é que tal interessaria, a mim, aos meus amigos ou a quem quer mais que fosse?...

Foi com esse pensamento que me despedi do bondoso Sargento Meireles, dos amigos que fiz em Malpique, que me coloquei ao volante do meu Alfa Romeu, já agora topo de gama, que virei costas à Portela de Santa Margarida e que me dirigi pela A 23 de regresso à minha casa de Lisboa, seguro de que em minha casa encontraria não só sossego, mas também a escritura de compra de uma carpintaria, datada de 1929 e uma espingarda ferrugenta que muito antes me fora asseverado ter pertencido ao meu paterno avô.

Lisboa, Campo de Ourique, 28 de Fevereiro de 2025.

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